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A leishmaniose canina é uma doença grave e complexa, que pode colocar desafios importantes em termos de diagnóstico, terapêutica e profilaxia.

 

As doenças provocadas por parasitas do género Leishmania constituem, no seu conjunto, uma das doenças tropicais mais negligenciadas em todo o Mundo. O número de humanos infectados a nível mundial ascende aos 12 milhões, o que torna a leishmaniose na terceira doença transmitida por vectores mais importante para o Homem. Na Europa Meridional, a doença é provocada por parasitas da espécie Leishmania infantum, que causam doença cutânea e visceral, sobretudo em crianças com idade inferior a três anos (de onde a designação infantum) e em adultos imunocomprometidos. O cão é considerado o principal reservatório doméstico/peridoméstico para a infecção humana, e a leishmaniose canina constitui uma zoonose de grande importância, endémica em mais de 70 países da Europa Meridional, África, Ásia e América Central e do Sul. A seroprevalência de leishmaniose canina varia entre 5 e 30% nos países da Europa Meridional e estima-se que o número de cães infectados em Itália, França, Espanha e Portugal seja de 2,5 milhões de animais (num universo de 15 milhões de cães existentes nestes países).

 
 


Em termos de profilaxia, a medida mais importante continua a ser considerada a prevenção da picada do vector, seja através do uso de agentes repelentes da classe das permetrinas, quer mantendo os cães no interior das habitações durante o período de maior actividade do insecto – ao amanhecer e ao anoitecer, sobretudo nos meses de Março a Novembro, em conformidade com a temperatura ambiente. No entanto, têm surgido outras medidas profiláticas ao longo dos últimos anos, tais como a administração de imunomodeladores, como o Leisguard® (que favorecem o desenvolvimento de uma resposta imune celular, associada à resistência à infecção) e o desenvolvimento de vacinas, disponíveis no mercado nacional desde 2011. No entanto, a complexidade de que se reveste a infecção e a doença provocada por Leishmania infantum implica que não existe nenhuma medida profilática 100% eficaz.

 
 

Na era da vacinação, o diagnóstico dos casos de leishmaniose canina tornou-se num desafio ainda maior, uma vez que a vacinação está associada com a produção de anticorpos. Com a primeira vacina que saiu no mercado das observa-se um pico de anticorpos duas semanas após a última aplicação da primovacinação, e os títulos podem permanecer elevados durante 4 a 12 meses, ou mesmo mais em determinados indivíduos. Por outro lado, com a vacinação recombinada observa-se um pico de produção de anticorpos duas semanas após a primeira aplicação, mas curiosamente os anticorpos não parecem interferir com os testes serológicos qualitativos nem quantitativos disponíveis actualmente.

 

Em termos terapêuticos, os antimoniais (como seja o antimoniato de meglumina) continuam a constituir a primeira linha terapêutica, em associação com a administração de fármacos leishmaniostáticos, como o alopurinol. O primeiro deve ser administrado num ciclo terapêutico de 28 dias, enquanto a administração de alopurinol deve ser efectuada durante um período não inferior a 6-12 meses. A miltefosina surgiu no mercado veterinário como alternativa aos antimoniais, sobretudo para animais que apresentem doença renal associada à infecção. No entanto, estudos recentes revelam que este fármaco não possui uma acção tão prolongada como o antimoniato de meglumina, pelo que começa a surgir a recomendação de realizar o tratamento com miltefosina em dois ciclos de 28 dias, separados por um intervalo de quatro meses. Ainda no que diz respeito ao tratamento de leishmaniose canina, surgiu recentemente no mercado espanhol uma auto-vacina, produzida a partir de amostras de punção ganglionar de animais infectados. Destina-se a aplicação a animais que não responderam à abordagem terapêutica clássica, ou que sofreram efeitos adversos da administração de fármacos leishmanicidas. Pode encontrar informação relativa a esta nova abordagem terapêutica em http://www.diomune.com/en/autovacuna-para-leishmaniosis-canina/.

A leishmaniose canina é uma doença grave e complexa, que pode colocar desafios importantes em termos de diagnóstico, terapêutica e profilaxia. Em 2008, foi criado o Leishvet – um grupo de especialistas internacionais que visa estudar e ajudar os médicos veterinários a gerir esta doença. No site deste grupo pode encontrar documentação, traduzida para português, relativa ao diagnóstico, estadiamento, profilaxia e tratamento da leishmaniose canina e felina.

Bibliografia
Simpósio Leishvet 2018 – South European Veterinary Conference, Madrid, 2018
www.leishvet.org

Texto gentilmente cedido para a parceria APMVEAC-ECUPHAR pela Dra Ana Teresa Reisinho